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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Limbo - Parte 1

Fila, chamada, calada, carimbo. Destino? Limbo.

Cruzou a linha tênue que separa as duas realidades. Tudo adquiriu uma coloração mais azulada-acinzentada. Escutou o último som, que não era muito animador, antes de entrar no mundo escuro, onde as luzes artificiais típicas da noite não bastam para afugentar as trevas.

Se olhou no espelho, não conseguiu reconhecer o próprio rosto! Estava como sempre foi! Se olhou, deu meia-volta e olhou no espelho novamente. Não podia acreditar, estava exatamente igual, nem mesmo um arranhão. Não compreendeu.
Continuou. Desceu a pequena colina envolta em névoa, tomando cuidado para não cair por conta da grama escorregadia e da lama, passou por entre os arvoredos mortos com seus troncos escurecidos pela podridão onde habitavam os mais desgostosos vermes. Chegou ao fim da trilha lamacenta, sentiu frio, um frio de fim de outono... Por sorte, um sobretudo empoeirado estava pendurado no galho de uma árvore. Vestiu-o. O denso nevoeiro se dissipou estranhamente apenas alguns passos logo a sua frente, revelando uma casa escura, de dois andares, extremamente desgastada pelo tempo e má conservação - aparentava estar quase ruindo.

Sentiu um enigmático ar convidativo para se aventurar na estranha edificação. Abriu a porta, não sem um pequeno esforço, pois estava emperrada. Entrou. Uma sala decrépta surgiu perante seus olhos. Um corredor nada iluminado e com ar pesado o afugentou para uma escada muito suja de poeira. Subiu.

Chegou em um quarto, um quarto que contava histórias do passado. Histórias tão tristes, desgastantes, lamentáveis, macabras, sórdidas que pouparei o(a) leitor(a) dos detalhes. Como numa epifania, sua visão até então turva, ficou perfeita. Ainda mais que perfeita; passou a possuir uma minuciosidade, uma capacidade de enxergar em mínimos detalhes todo o quarto onde se encontrava, Apesar disso, decidiu por tatear a parede, e, como se tratava de um ático, pode encostar na junta da parede com o teto rebaixado. A junta era mal feita, ou ao menos, estava dilatada por conta dos muitos anos de abandono. Pôs o dedo na junta instintivamente. Não havia nada dentro da mesma.
Repentinamente, um sopro gelado passou pelo quarto decadente através das frestas e buracos nas janelas. Luzes se acenderam. Pequenas luzes: vagalumes. Iluminaram uma aranha que andava na parede, próximo de sua mão, que logo se recolheu.

Ouviu sons findos do lado de fora, parecia que alguém estava por perto.
Desceu correndo as escadas, abriu a porta que havia se fechado. Tudo o que pôde ver foi um vulto que rapidamente se enfiou no mato seco se escondendo entre as árvores mortas e dentro da serração. Chamou por alguém. Não houve resposta. Chamou mais uma vez. Mais uma vez o silêncio.

Ficou solitário, inserido nas trevas, envolto em névoa espessa, no frio e principalmente, sem saber o que viria. O medo percorreu todo seu ser como uma anestesia. Fechou os olhos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Poços

Há quem diga que os olhos são espelhos da alma. Não gosto dessa analogia. Me parece muito mais adequado dizer que são poços.
A alma das pessoas é algo muito mais profundo do que parece, tão profundo que parece não haver profundidade suficiente nos espelhos para refleti-la. A alma, sendo portanto demasiadamente profunda, é como um poço. Em poços muito fundos, não temos como descobrir diretamente sua profundidade; então, jogamos uma pedra, atacamos o poço, lançamos algo ao desconhecido, para que haja resposta, um retorno - no caso, o som de seu fundo ou de suas águas.
De igual maneira se comporta a alma. Sua abertura para o mundo são dois poços; os olhos. Olhos que leem, olhos que assistem muitas vezes impotentes à espetáculos torturantes, olhos que veem a danação coletiva e individual.
Para que esses olhos-poço respondam ao ambiente exterior, se faz necessária uma ação prima. Tal ação prima, que pode ser uma frase, um ato, ou mesmo um olhar, é como a rocha lançada ao desconhecido. Na escuridão do poço a pedra deverá viajar, até então atingir as águas do fundo.
As respostas podem ser das mais variadas. Entretanto, nas vezes em que as pedras são grandes em demasia, sua natureza pesada, grandiosa requer uma pesada e grandiosa resposta. Agora, leitor(a), pense comigo: lei simples de física; toda ação corresponde a uma reação em igual intensidade. Pois bem. O que acontece ao lançarmos uma pedra numa superfície líquida? Ora, a água sobe! Exatamente.
Tendo isto em mente, não se faz nada difícil concluir que quanto maior a pedra, maior o volume de água a subir. E o que isto quer dizer propriamente? Quer dizer que se uma rocha muito grande for lançada nos poços de nossos olhares, há a possibilidade de que a profundidade do buraco do poço não seja suficiente para comportar tamanho volume de água, o que então ocorre é que dos poços jorram águas, águas pesadas correspondentes à pesada rocha lançada em seu interior comum, isto é, em sua "alma-lençol-freático".

Behind Brown Eyes
Para que não aconteça de águas jorrarem dos olhos-poço, surge a obrigação de se ter poços bem cavados, profundíssimos. Tão profundos, que fica impossível ver o fundo, tão profundos, que não é nem mesmo atrativo tentar mesurar esta profundidade com um argumento em forma de pedra.
E assim que isso se tornar a realidade de teus olhos, leitor(a), haverá quem vos diga: "Teus olhos castanhos escuros são tão profundos, que parecem vazios, não vejo nada, não vejo vida, não vejo você."

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sonhos Lúcidos


Em 1867, o escritor francês Léon d'Hervey de Saint-Denys, ao publicar seu livro intitulado "Les Rêves et les Moyens de les Diriger", discorreu sobre os sonhos lúcidos. Mais tarde, já no século XX, o psicólogo Stephen LaBerge definiu este tipo de sonho como o ato de se estar "sonhando enquanto sabemos que estamos sonhando".
Não sei quanto ao(à) leitor(a), mas eu já tive sonhos lúcidos. A sensação é fantástica na maioria das vezes. Outra experiência muito interessante é o sonhar acordado. E mais interessante ainda é um sonho lúcido acordado!

Hoje pela manhã eu estava deitado numa mureta, terminando de ler um livro, quando então decidi abaixar o livro para descansar. Foi então que me deparei com uma cena banal, (esta, que ilustra a página) mas que me chamou muito atenção e me fez querer uma outra vida. Uma vida digamos assim, idealizada. Não sei dizer ao certo se sonhei acordado, mas a idealização era tão grande e a vontade tão intensa que me pareceu um sonho; um sonho lúcido, e claro controlado apenas por mim. A idealização se ambientava num lugar qualquer aqui no Sul do Brasil, onde a vida seria tranquila com bons amigos e porque não bons familiares, num dia qualquer... Tudo muito pacato, ao vento tranquilo que balança o lençol no varal e à sombra da copa da árvore. Me senti calmo, gratificado. Voltei a mim e decidi tirar a foto que pode ser vista ao lado.
Imagine esta cena ao som de alguma banda ou cantor de rock relaxante; Sabonetes, Bob Dylan ou Mutantes. Excelente! Essas idealizações superam a realidade em muito, gosto delas, e aposto que muitos também as preferem em alguns momentos.