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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Conto (de) Passageiro

O cenário: cair da noite, fria e chuvosa.
Saiu do café com um ar conformado, com ar monótono. Ao menos havia tomado um café previamente adocicado, e havia acrescentado duas colheres a mais de açúcar. As coisas doces o agradavam.
Andou em silêncio, ouvindo suas músicas e desviando das poças de água que cresciam nos desníveis tortuosos das calçadas a medida que a chuva aumentava. Parou. Pôs a mão no bolso e tirou suas moedas. Pagou a passagem de ônibus. Esperou. Continuou ouvindo suas músicas e esperou mais.
- Lá vem o ônibus.

Como todos, se preparou para o embarque. Entre a pequena multidão que se espremia e se aglomerava próximo à porta, notou uma moça com cabelos brilhantes. Sentiu uma discreta vontade de poder ver seu rosto, mas ela estava de costas.
Entraram no ônibus.
Em meio à confusão de passageiros saindo, entrando, se sentando e se ajeitando, lá estava ela novamente, caminhando até o fundo do veículo. Sem notar, ele caminhou para o mesmo local; havia dois bancos vagos. De repente um rapaz o passou e se sentou onde pretendia se sentar. A moça se sentou logo atrás, precisamente no último banco bem ao centro. E ele, como não conseguira nenhum lugar, permaneceu em pé defronte à garota.

Pôde ver seu rosto. Era belo. Muito.
O ônibus inciava sua viagem.
Havia do lado dela um rapaz, mal encarado, um tanto estranho. Mas isso não era importante. Olhou para fora, e para as gotas que deslisavam pelas janelas. Porém, não pôde continuar a olhar para fora por muito tempo. Algo fazia com que voltasse sua atenção para a moça sentada logo a sua frente. Notara que ela não usava um calçado comum, era um calçado diferente, único. Notara sua blusa branca, e sua face; olhos esverdeados inebriantes, lápis de olho, nariz fino, lábios também finos coloridos com batom rosa avermelhado suave e brincos brancos pendurados delicadamente em cada orelha.

Tentou tratar de esquecer disso e voltou a olhar as gotas passeando pelas janelas, hora mais rápidas, hora mais lentas, de acordo com a aceleração do transporte. Tentativa vã. Olhou novamente para a moça. Ela adormecera. Bem, ao menos seus olhos estavam fechados e suas mãos pálidas repousavam uma sobre a outra. Tinha uma expressão em seu rosto; ele não foi capaz de distinguir se era cansaço, calma ou tristeza. Fixou o olhar e prestou atenção nela e se esqueceu dos outros passageiros por alguns instantes. Resolveu considerar que se tratava das três coisas juntas. Parecia um anjo. Era serena e doce. As coisas doces o agradavam. Desviou sua atenção de novo, mas desta vez para o chão. E assim permaneceu por alguns minutos.

"Como ela é bonita!" - pensava consigo. "Talvez vislumbrá-la apenas mais uma vez não seria má ideia, ela está dormindo tão calma..." - também pensara. Levantou a cabeça e ela o olhava diretamente. Sem querer se entreolharam, olhos nos olhos, por um segundo ou menos. Viraram suas faces para outro ponto qualquer simultaneamente, e ao mesmo tempo abaixaram suas cabeças. O ônibus finalmente chegou em sua primeira parada.

"Será que ela desce aqui? Muitos descem aqui.". Ela não desceu. Mas o susto e o incômodo o impeliram a se sentar, visto que muitos bancos ficaram vagos. Se sentou. Encostou a cabeça na janela embaçada e se meteu a pensar, a imaginar ações e falas com a bela desconhecida que sentava dois bancos atrás. Ações e falas diversas, e suas permutações em outras inúmeras ações e falas. Adormeceu.

"Cuidado com furtos no interior do veículo", era o que dizia a voz que o acordava. Ele se indagou se a garota ainda estava lá, mas havia gente demais para ver. Passou mais uma parada e um engarrafamento com esta questão em mente. Passado o engarrafamento, se aproximava seu destino. E o dela também. Ela passou por ele ao sair. Tentou tomar o mesmo caminho, mas o mesmo rapaz que o passara ao momento do embarque, o passou no momento do desembarque. Saíram. A garota havia se perdido.

Pegou se guarda-chuva embora não estivesse chovendo. Atravessou a rua, e viu a garota metros a frente. Pensou em oferecer seu guarda-chuva, uma vez que ela se encontrava sem. Ora, que ideia tola! Não estava chovendo. Oferecer o abrigo só o faria parecer um qualquer esquisito e oportunista - e talvez o fosse, no fundo o fosse, internamente, em seu âmago tinha isto como certeza. A garota colocou um capuz. Ambos ficaram presos no meio da avenida, entre os carros passando. Uma brecha. Atravessaram. Ele na beira da calçada, ela sob as marquises.

Uma quadra depois e a chuva volta a cair. "Agora sim, vou diminuir o passo e oferecer meu guarda-chuva". Olhou para trás e ela não se encontrava mais lá. Típico. Uma pena. Uma amargura, falta de doçura. Não era bom, entretanto a lembrança era fresca e era doce. E as coisas doces o agradavam.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Nuvem

Não dormiu, ou, se dormiu, foi muito pouco e muito mal, disso o(a) leitor(a) pode ter certeza.
Se vestiu e saiu de casa. Ainda estava muito escuro, e, seja por sorte ou por azar, estava tão frio que o ar da respiração quando expelido se condensava muito mais que o de costume; o que talvez fosse um tanto agradável, pois combinava com a neblina que pairava sobre a cidade.
Entrou em uma padaria relativamente simples, ou melhor; verdadeiramente simples. Como muitas outras, tudo o que encontrou nesta foram pessoas doentes, entristecidas possivelmente mais que ele próprio, alguns maltrapilhos tentando fugir do frio, uns trabalhadores cansados e um bêbado procurando se curar da ressaca da última noitada. Pediu um pão e um café para a viagem; não poderia aguentar todo aquele falatório, uma vez que de queixas, bastavam as dele mesmo.
Foi até o banco público que mais lhe conveio. Comeu e bebeu. E, enquanto o fazia, notava a mediocridade dos homens e a ferocidade com que os afazeres do quotidiano abocanham a vida de todos nós (ou ao menos de quase todos nós).
O dia começava a clarear quando terminou de comer. De qualquer modo, não havia muita luz; a névoa era muito espessa. Tanto que praticamente não era possível ver o topo dos prédios mais próximos e tão pouco dos distantes.
Caminhou até uma praça. No caminho topou com mais mendigos, putas, doentes e trabalhadores. Porém, desta vez viu ainda estudantes e repugnantes madames habitantes dos apartamentos e casas mais luxuosos da região a passear com seus caríssimos e pequenos cães de raça - provavelmente de alguns nomes alemães curiosos. Destas pessoas sentiu maior sentimento de repulsa do que das prostitutas imundas.
Ele se encontrava irritado e um tanto cabisbaixo, mas não poderia precisar o motivo de tais angústias caso lhe perguntassem - o que seria completamente improvável, já que ele cobrava de si mesmo ótima dissimulação dos sentimentos, visando aparentar estar bem, da mesma forma como você leitor(a), estou quase certo, faz constantemente. Entretanto o clima frio o agradava (ou aparentava apaziguá-lo pelo menos), assim como a paisagem tipicamente outonal; algumas poucas árvores mudando de cor em meio a pinheiros, araucárias e palmeiras. Estas árvores caducifólias... Com suas folhas apodrecendo no gramado, na calçada e nas ruas, quando não ainda presas à própria árvore.
O tráfego aumentara consideravelmente desde a hora em que saíra de casa (se é que podia chamar aquele lugar de casa).
A fumaça que saía de sua boca e turvava sua visão o distraia por alguns instantes. Era também esta sua única forma de tentar não pensar nos problemas que precisava resolver. Mas, ao passo que a fumaça se dissipava e desaparecia, seus problemas seus pensamentos desagradáveis surgiam. Provou-se assim, que sua distração era deveras ineficaz.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Limbo - Parte 1

Fila, chamada, calada, carimbo. Destino? Limbo.

Cruzou a linha tênue que separa as duas realidades. Tudo adquiriu uma coloração mais azulada-acinzentada. Escutou o último som, que não era muito animador, antes de entrar no mundo escuro, onde as luzes artificiais típicas da noite não bastam para afugentar as trevas.

Se olhou no espelho, não conseguiu reconhecer o próprio rosto! Estava como sempre foi! Se olhou, deu meia-volta e olhou no espelho novamente. Não podia acreditar, estava exatamente igual, nem mesmo um arranhão. Não compreendeu.
Continuou. Desceu a pequena colina envolta em névoa, tomando cuidado para não cair por conta da grama escorregadia e da lama, passou por entre os arvoredos mortos com seus troncos escurecidos pela podridão onde habitavam os mais desgostosos vermes. Chegou ao fim da trilha lamacenta, sentiu frio, um frio de fim de outono... Por sorte, um sobretudo empoeirado estava pendurado no galho de uma árvore. Vestiu-o. O denso nevoeiro se dissipou estranhamente apenas alguns passos logo a sua frente, revelando uma casa escura, de dois andares, extremamente desgastada pelo tempo e má conservação - aparentava estar quase ruindo.

Sentiu um enigmático ar convidativo para se aventurar na estranha edificação. Abriu a porta, não sem um pequeno esforço, pois estava emperrada. Entrou. Uma sala decrépta surgiu perante seus olhos. Um corredor nada iluminado e com ar pesado o afugentou para uma escada muito suja de poeira. Subiu.

Chegou em um quarto, um quarto que contava histórias do passado. Histórias tão tristes, desgastantes, lamentáveis, macabras, sórdidas que pouparei o(a) leitor(a) dos detalhes. Como numa epifania, sua visão até então turva, ficou perfeita. Ainda mais que perfeita; passou a possuir uma minuciosidade, uma capacidade de enxergar em mínimos detalhes todo o quarto onde se encontrava, Apesar disso, decidiu por tatear a parede, e, como se tratava de um ático, pode encostar na junta da parede com o teto rebaixado. A junta era mal feita, ou ao menos, estava dilatada por conta dos muitos anos de abandono. Pôs o dedo na junta instintivamente. Não havia nada dentro da mesma.
Repentinamente, um sopro gelado passou pelo quarto decadente através das frestas e buracos nas janelas. Luzes se acenderam. Pequenas luzes: vagalumes. Iluminaram uma aranha que andava na parede, próximo de sua mão, que logo se recolheu.

Ouviu sons findos do lado de fora, parecia que alguém estava por perto.
Desceu correndo as escadas, abriu a porta que havia se fechado. Tudo o que pôde ver foi um vulto que rapidamente se enfiou no mato seco se escondendo entre as árvores mortas e dentro da serração. Chamou por alguém. Não houve resposta. Chamou mais uma vez. Mais uma vez o silêncio.

Ficou solitário, inserido nas trevas, envolto em névoa espessa, no frio e principalmente, sem saber o que viria. O medo percorreu todo seu ser como uma anestesia. Fechou os olhos.