quarta-feira, 14 de novembro de 2012
domingo, 7 de outubro de 2012
De aparência delicada, meiga. A garota vivia uma vida boa, suburbana mas proclamava para si a vida que os de lá queriam que ela vivesse.
Escutava muitas coisas diferentes. Queria ser dark, mas não podia. Suas amigas também não podiam. Isto é; será que ela teve amigas?
Talvez quisessem ser assim, ter contato com essas coisas porque a vida era boa demais, porque não conseguiam imaginar com toda a força e veracidade grotesca, detestável e agoniante - ainda que todas tivessem excelentes habilidades criativas e psicomotoras.
Tinha uma que era puta. Mas ela não fazia diferença; viviam como uma porca se afundando na lama guiada pelas drogas e por alguns garotos que cometiam pequenos crimes e que cheiravam umas carreiras às vezes.
Essa merda toda já não faz sentido. Por que corriam atrás dos vadios? Bem, é porque às vezes as garotas gostam dos caras que fazem elas sofrerem. A mente feminina é atormentada até por ela mesma.
Será que Kerouac iria gostar disso?
Escutava muitas coisas diferentes. Queria ser dark, mas não podia. Suas amigas também não podiam. Isto é; será que ela teve amigas?
Talvez quisessem ser assim, ter contato com essas coisas porque a vida era boa demais, porque não conseguiam imaginar com toda a força e veracidade grotesca, detestável e agoniante - ainda que todas tivessem excelentes habilidades criativas e psicomotoras.
Tinha uma que era puta. Mas ela não fazia diferença; viviam como uma porca se afundando na lama guiada pelas drogas e por alguns garotos que cometiam pequenos crimes e que cheiravam umas carreiras às vezes.
Essa merda toda já não faz sentido. Por que corriam atrás dos vadios? Bem, é porque às vezes as garotas gostam dos caras que fazem elas sofrerem. A mente feminina é atormentada até por ela mesma.
Será que Kerouac iria gostar disso?
segunda-feira, 18 de junho de 2012
É.
O tempo não volta. Isso dá desgosto. O teu tempo é o desgosto.
Quantas vezes quiseste voltar atrás? É. Mas não vai; o tempo só segue para frente, só avança, só dilacera tua criança.
Inveja. Raiva. Remorso. Vingança.
Mas acalme-te! Não houve delito! Nenhum outro deverá punir-te. Aquela que o punirá, tu conheces bem; está dentro de ti; na sua mente. Seus dias serão preenchidos das recordações que poderiam ser. Vejamos então a figura grotesca que emana do interior.
A religião diz que a inveja é ruim. Mas não importa, este deus não existe e é só mais um ídolo hipócrita tal como a instituição depravada que o rende graças. Com 'tua obra' caída, teus (sim, os teus) demônios batem asas!
Quantas vezes quiseste voltar atrás? É. Mas não vai; o tempo só segue para frente, só avança, só dilacera tua criança.
Inveja. Raiva. Remorso. Vingança.
Mas acalme-te! Não houve delito! Nenhum outro deverá punir-te. Aquela que o punirá, tu conheces bem; está dentro de ti; na sua mente. Seus dias serão preenchidos das recordações que poderiam ser. Vejamos então a figura grotesca que emana do interior.
A religião diz que a inveja é ruim. Mas não importa, este deus não existe e é só mais um ídolo hipócrita tal como a instituição depravada que o rende graças. Com 'tua obra' caída, teus (sim, os teus) demônios batem asas!
Este ser se acalma por fim. Mas o remorso do não está ali, latente, esperando pacientemente para o momento em que será consumado, esperando junto à raiva, esperando junto à inveja. Doce inveja. Ela move todas as criaturas. Todas degeneradas. Ela as corrói, mas estão passivas, estão sedadas, sendo assim, não dói.
Só queria voltar atrás, fazer o que não fez. Queria e nunca poderá. Quer seja a infância, quer seja a adolescência, não poderá. O que fez? Nada. O que gostaria de ter feito? Tudo. O que quer fazer? Tudo. Tudo, mas nada que faça será o suficiente, visto que estas coisas deveriam ter sido feitas antes - naquele 'antes', naquele passado inalcançável, enterrado, que não pode ser revivido, não pode ser alterado.
Gostaria de ter sido normal. Foi simples, tosco, anormal; foi ruim, foi único, foi diferente, até excêntrico; nada que fizera foi surpreendente, não teve grande sorte, não era bom em nada em especial. Hoje este é um pouco normal [de fato], mas gostaria de ser excêntrico, de ser único, de ser diferente; hoje o ser excêntrico, o único, e o diferente são o 'ser normal'. Insano. Se remói em si mesmo. Não tem idade para ser quem queria: fatalismo. O único que é.
Gostaria de ter sido normal. Foi simples, tosco, anormal; foi ruim, foi único, foi diferente, até excêntrico; nada que fizera foi surpreendente, não teve grande sorte, não era bom em nada em especial. Hoje este é um pouco normal [de fato], mas gostaria de ser excêntrico, de ser único, de ser diferente; hoje o ser excêntrico, o único, e o diferente são o 'ser normal'. Insano. Se remói em si mesmo. Não tem idade para ser quem queria: fatalismo. O único que é.
domingo, 10 de junho de 2012
Diário de uma Garota
Inveja, ódio, raiva, medo e nostalgia. Esses eram os sentimentos que meus amigos sentiam, uns mais outros menos. À estes está associado ainda o sentimento de culpa e o de negação. E por isso fumam e bebem, e inventam mentiras para si mesmos e para outras pessoas. Em suma, só mais uma história normal; constatação de nossos tempos.
Alguns não confiam em si mesmos, mas em quem vão confiar? No Zé da esquina, no cara que cheira umas carreiras de pó no banheiro, no playboy passando de carro 0 com duas piriguetes que só querem se aproveitar de seu dinheiro, ou no porteiro tarado? Talvez na velha mesquinha que vende chocolates e que depois a neta drogada xinga? Não, estas pessoas estão ainda piores que eles mesmos. Então, sentem-se mal por não terem grandes problemas. Vão à esquina famosa, e bebem mais com seus amiguinhos que não são amiguinhos na verdade - apenas companheiros de copo. Uns bêbados chatos. Só fico me perguntando como deve ser a 'psyque' dessa gente.
Alguns não confiam em si mesmos, mas em quem vão confiar? No Zé da esquina, no cara que cheira umas carreiras de pó no banheiro, no playboy passando de carro 0 com duas piriguetes que só querem se aproveitar de seu dinheiro, ou no porteiro tarado? Talvez na velha mesquinha que vende chocolates e que depois a neta drogada xinga? Não, estas pessoas estão ainda piores que eles mesmos. Então, sentem-se mal por não terem grandes problemas. Vão à esquina famosa, e bebem mais com seus amiguinhos que não são amiguinhos na verdade - apenas companheiros de copo. Uns bêbados chatos. Só fico me perguntando como deve ser a 'psyque' dessa gente.
Minhas amigas, por vez, gostam de se dizer santas mas gostam mesmo é de pegar um bom canalha, daqueles que fazem você se sentir especial, que você sabe que vai dar problema, que é um cara errado, mas que é perfeito pra se divertir. Há ainda as que só pensam em trabalhar, a maioria pensa que elas são umas coitadas... podem até ser, mas são as mais legais.
Já esta que vos fala olha isso com certa pena. Olho pra mim mesma e não me vejo assim como estes, ainda bem. Tenho uns problemas sim... Talvez eu não confie em mim mesma, mas quem é que confia em tudo de si? O foda mesmo é ter que responder perguntas que não gosto, coisas que me deixam nervosa, ou meio exposta... Tipo perguntas de coisas íntimas, coisas pessoais, que minhas amigas e às vezes até uns amigos mais avançadinhos me fazem toda hora. Mas consigo dar um jeito bem neles, é um tanto incômodo, mas depois que olho pra trás parece bem divertido. Tem umas vezes também, que eu tenho que mentir pra escapar de um papo chato, mas é só uma mentirinha, não faz mal e ninguém vai ficar sabendo. Confesso que já menti e omiti para poupar minhas três melhores amigas (uma nem é mais minha amiga, mas ainda assim considero). É aquela coisa né: a verdade machuca. Mas quando é pra mim, prefiro saber a verdade, mesmo que machuque.
Tem uma piranha de marca maior lá do serviço que quis sair comigo ontem, tive que ir pra fazer social. Foi uma bosta, pior que ela resolveu fazer compras e fomos ver umas calças, umas saias e meia calça também. Ela teve a falta de noção de comprar uma saia com estampas coloridas, parecia uma colcha de retalhos, e para fechar com chave de ouro, ainda comprou uma meia arrastão e uma cinta liga. De certo quer aumento ou alguma coisa do chefe... Mas o que mais me irritou foi ela ter postado tudo isso na internet e com fotos ainda, que fui obrigada a tirar com ela pra não ficar chato. Tudo isso, além da conta de luz que veio errada, muito alta - mais de mil -, pela segunda vez! E pra piorar, ainda na minha tpm!
Acho que já foi bastante, vou comer o resto do brigadeiro que eu fiz de tarde e ir ver um filme.
Já esta que vos fala olha isso com certa pena. Olho pra mim mesma e não me vejo assim como estes, ainda bem. Tenho uns problemas sim... Talvez eu não confie em mim mesma, mas quem é que confia em tudo de si? O foda mesmo é ter que responder perguntas que não gosto, coisas que me deixam nervosa, ou meio exposta... Tipo perguntas de coisas íntimas, coisas pessoais, que minhas amigas e às vezes até uns amigos mais avançadinhos me fazem toda hora. Mas consigo dar um jeito bem neles, é um tanto incômodo, mas depois que olho pra trás parece bem divertido. Tem umas vezes também, que eu tenho que mentir pra escapar de um papo chato, mas é só uma mentirinha, não faz mal e ninguém vai ficar sabendo. Confesso que já menti e omiti para poupar minhas três melhores amigas (uma nem é mais minha amiga, mas ainda assim considero). É aquela coisa né: a verdade machuca. Mas quando é pra mim, prefiro saber a verdade, mesmo que machuque.
Tem uma piranha de marca maior lá do serviço que quis sair comigo ontem, tive que ir pra fazer social. Foi uma bosta, pior que ela resolveu fazer compras e fomos ver umas calças, umas saias e meia calça também. Ela teve a falta de noção de comprar uma saia com estampas coloridas, parecia uma colcha de retalhos, e para fechar com chave de ouro, ainda comprou uma meia arrastão e uma cinta liga. De certo quer aumento ou alguma coisa do chefe... Mas o que mais me irritou foi ela ter postado tudo isso na internet e com fotos ainda, que fui obrigada a tirar com ela pra não ficar chato. Tudo isso, além da conta de luz que veio errada, muito alta - mais de mil -, pela segunda vez! E pra piorar, ainda na minha tpm!
Acho que já foi bastante, vou comer o resto do brigadeiro que eu fiz de tarde e ir ver um filme.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Encasulada
Dizem que os opostos se atraem. É mentira.
Havia um garoto chamado Eduardo que era bom em algumas coisas, mas não em tudo, falava bastante, não era do tipo mudo. Havia uma garota chamada Camila que era boa em algumas coisas, boa na maioria das coisas, mas em outras ficava confusa.
Num dia quente, provavelmente com chuva, não temos certeza, eles se conheceram. Se olharam e ambos pensaram: "Nossa, que babaca aí na minha frente." Entretanto sorriram e foram embora. Talvez Eduardo tivesse pensado alguma outra coisa, possivelmente envolvendo cerveja.
Dias se passaram e contra suas vontades, tiveram que conviver. A aversão mútua hora crescia, hora se apagava. Muito mais por parte de Eduardo, ele era instável. Muitas pessoas reclamavam disso na verdade.
Já Camila era mais estável (bem mais), porém - sempre os poréns - era um tanto tímida. De qualquer maneira, todos contornavam isso, ou simplesmente a contornavam e prosseguiam. Esse tipo de atitude alheia foi o que encasulou Camila por alguns anos, até que ela se tornasse esquiva. O mesmo acontecera com Eduardo, certamente por motivos diferentes, mas em alguma parte do processo, alguém acidentalmente quebrou seu casulo.
Havia um garoto chamado Eduardo que era bom em algumas coisas, mas não em tudo, falava bastante, não era do tipo mudo. Havia uma garota chamada Camila que era boa em algumas coisas, boa na maioria das coisas, mas em outras ficava confusa.
Num dia quente, provavelmente com chuva, não temos certeza, eles se conheceram. Se olharam e ambos pensaram: "Nossa, que babaca aí na minha frente." Entretanto sorriram e foram embora. Talvez Eduardo tivesse pensado alguma outra coisa, possivelmente envolvendo cerveja.
Dias se passaram e contra suas vontades, tiveram que conviver. A aversão mútua hora crescia, hora se apagava. Muito mais por parte de Eduardo, ele era instável. Muitas pessoas reclamavam disso na verdade.
Já Camila era mais estável (bem mais), porém - sempre os poréns - era um tanto tímida. De qualquer maneira, todos contornavam isso, ou simplesmente a contornavam e prosseguiam. Esse tipo de atitude alheia foi o que encasulou Camila por alguns anos, até que ela se tornasse esquiva. O mesmo acontecera com Eduardo, certamente por motivos diferentes, mas em alguma parte do processo, alguém acidentalmente quebrou seu casulo.
Mais algumas semanas, cada vez mais curtas, se passaram, e Eduardo pensou em não pensar. Não conseguiu. Camila, por outro lado, pensava em pensar, e apenas nisso. Ela tinha medo de não pensar, assim como você leitor provavelmente também teme. Eduardo já fora como Camila, mesmo sem querer (e quem é que pode afirmar que Camila queria isso?), mas se transviara. Uma pena, talvez - depende do ponto de vista.
Mais algumas noites vieram e se foram, e Camila começou a não pensar, mas ficou com medo e logo tratou de ser esquiva; desviava habilmente da ausência de pensamento. Eduardo pensava cada vez menos. As coisas não batiam. Eles se olharam algumas vezes mais - nota-se que Eduardo olhou mais -, e não pensavam mais o mesmo que no início, sequer pensavam. Isso os incomodava ou os assustava, eles também não tinham certeza. A única certeza é que então, ambos se olhavam. Apenas se olhavam, e tudo o que havia era a imagem um do outro expressa em suas pupilas.
Seis dias depois, Camila resolveu ser mais Camila do que de costume; esquivava-se melhor.
Eduardo me contou isso. Prometi que não escreveria nada sobre o assunto, mas cá estou eu, contanto estórias distorcidas, cheias de subjetividades e comentários de outros que já estão sabendo do que Eduardo me contou.
Certa hora Camila começa a sair de cena. E tudo nos leva a crer que esta hora é agora. À noite todos saem de cena, só restam os gatos pulando de muro em muro e os bêbados sentados em meios-fios com suas garrafas de cachaça. A debandada do palco, o apagar de luzes momentâneo só faz Eduardo pensar que ele sempre viu Camila de perfil, nunca de frente mostrando um sorriso singelo. Camila virou uma silhueta virada de lado, num retrato quadrado, fora de cena, fora do teatro da cabeça de Eduardo, que outra vez acordou de um sonho. Calado.
Mais algumas noites vieram e se foram, e Camila começou a não pensar, mas ficou com medo e logo tratou de ser esquiva; desviava habilmente da ausência de pensamento. Eduardo pensava cada vez menos. As coisas não batiam. Eles se olharam algumas vezes mais - nota-se que Eduardo olhou mais -, e não pensavam mais o mesmo que no início, sequer pensavam. Isso os incomodava ou os assustava, eles também não tinham certeza. A única certeza é que então, ambos se olhavam. Apenas se olhavam, e tudo o que havia era a imagem um do outro expressa em suas pupilas.
Seis dias depois, Camila resolveu ser mais Camila do que de costume; esquivava-se melhor.
Eduardo me contou isso. Prometi que não escreveria nada sobre o assunto, mas cá estou eu, contanto estórias distorcidas, cheias de subjetividades e comentários de outros que já estão sabendo do que Eduardo me contou.
Certa hora Camila começa a sair de cena. E tudo nos leva a crer que esta hora é agora. À noite todos saem de cena, só restam os gatos pulando de muro em muro e os bêbados sentados em meios-fios com suas garrafas de cachaça. A debandada do palco, o apagar de luzes momentâneo só faz Eduardo pensar que ele sempre viu Camila de perfil, nunca de frente mostrando um sorriso singelo. Camila virou uma silhueta virada de lado, num retrato quadrado, fora de cena, fora do teatro da cabeça de Eduardo, que outra vez acordou de um sonho. Calado.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
Em voz alta.
Cada vez mais
sei que é arte.
Tudo é, em seus anais.
Mas sabe como é, homens são de Marte.
Arte, como a do amigo que sonha, com as vergonhas
da moça do cartaz.
Que se imagina, ele, com ela, com as fronhas.
Por esta, seria capaz, seria capataz.
Cada vez mais
sei que é arte.
De homens, não de animais.
Mas sabe como é, a falta, faz parte.
A garota que deita.
O quadro que desenha.
A faixa de areia, estreita.
O rapaz a quem desdenha.
Cada vez mais
sei que é arte.
Aqui, no Rio, na ilha, ou nas Minas Gerais.
É coisa que dura, que nem o tempo reparte.
Um outro mês
madrugada a dentro.
Ouvindo sempre aquela música em francês.
Lembro dessa e daquela, não me concentro.
Cada vez mais
penso que é tarde.
Escrevo notas dos pensamentos abissais,
Findarei este em voz alta, mas sem alarde.
sei que é arte.
Tudo é, em seus anais.
Mas sabe como é, homens são de Marte.
Arte, como a do amigo que sonha, com as vergonhas
da moça do cartaz.
Que se imagina, ele, com ela, com as fronhas.
Por esta, seria capaz, seria capataz.
Cada vez mais
sei que é arte.
De homens, não de animais.
Mas sabe como é, a falta, faz parte.
A garota que deita.
O quadro que desenha.
A faixa de areia, estreita.
O rapaz a quem desdenha.
Cada vez mais
sei que é arte.
Aqui, no Rio, na ilha, ou nas Minas Gerais.
É coisa que dura, que nem o tempo reparte.
Um outro mês
madrugada a dentro.
Ouvindo sempre aquela música em francês.
Lembro dessa e daquela, não me concentro.
Cada vez mais
penso que é tarde.
Escrevo notas dos pensamentos abissais,
Findarei este em voz alta, mas sem alarde.
sábado, 7 de janeiro de 2012
Dezembro
Esse é um post diferente. Li o blog de um amigo e fiquei inspirado a escrever. Mas não do jeito que sempre escrevo, do jeito que eu conversava com uma velha jovem dias atrás. É uma cópia adaptada, algo escarrado isso aqui. É grande. Não sei se é legal. Mas eu acho. Leia quem quiser.
Fazia um frio incomum aquele fim de ano. Na TV falaram que a temperatura aqui estava 6 ou 7 graus abaixo da média mínima. É, eu gosto de meteorologia, não tenho o que fazer mesmo.
Lembro de um sábado que acordei cedo, comi um pão, me arrumei, liguei o carro, esperei esquentar e fui trabalhar. Tava escutando alguma música alternativa, como costume. Chovia. Estacionei. Fiquei olhando reto e pensando: "Tomara que eu não pegue nenhuma aluninha tosca de manhã. De manhã é sempre pior dar aula. Eu queria dormir e comer chocolate. Ah foda-se, tenho que fazer isso."
Peguei o guarda-chuva, os fones de ouvido. Tranquei o carro. Fui andando, cansado. Era legal ver a fumaça da minha respiração. Bati ponto. Dei aula. Ao meio-dia já estava bem quente, mas lá dentro não. Continuei com o moletom. Almocei. Dei mais aula. Tinha aquele casal gente boa. Eram os mais legais de dar aula. O dia foi legal até, não tive nenhuma aluninha tosca. Era a mesma bobagem de sempre.
Peguei o guarda-chuva, os fones de ouvido. Tranquei o carro. Fui andando, cansado. Era legal ver a fumaça da minha respiração. Bati ponto. Dei aula. Ao meio-dia já estava bem quente, mas lá dentro não. Continuei com o moletom. Almocei. Dei mais aula. Tinha aquele casal gente boa. Eram os mais legais de dar aula. O dia foi legal até, não tive nenhuma aluninha tosca. Era a mesma bobagem de sempre.
Fui pra casa, já tava bem quente e não chovia no final do dia. Ainda vestia o moletom. Gosto daquele moletom.
É, isso foi no começo do mês.
Depois tive umas provas que ou me fodi, ou me dei bem. Sem meio termo. Sem eufemismo.
Depois tive umas provas que ou me fodi, ou me dei bem. Sem meio termo. Sem eufemismo.
Jantei no RU um outro dia. Como era bom jantar naquele "RU chique" que o povo das engenharias tem o privilegio de desfrutar sempre. Talvez o povo de humanas tenha que se foder mesmo. (acabo de expressar um sorriso ligeiro). Tava bem quente. Finalmente era Dezembro. Fui despedido. Fiquei de boa. Não era um problema - não ainda. Não precisei trabalhar naquela segunda. Perguntei se ainda poderia ir na festa da quarta-feira, no amigo secreto. É que eu não queria deixar um livro de poesias em alemão mofando no meu quarto. Não sei ler alemão.
Fui na festa. Não foi "a festa", mas foi muito melhor do que eu esperava. Estava certo que veria aquelas pessoas pela última vez. Durante a festa não estive tão certo assim, mas ao final a certeza voltou. Ganhei um DVD do AC/DC. Muito bom aliás; ele me lembrava da época em que eu era mais animado e escutava hard rock. Já se foram quatro anos. Sei que é coisa de velho, mas 'parece que foi ontem'.
A festa degringolava, estava acabando. Algumas verdades surgiam. Uma música horrível estava tocando, era realmente insuportável. Mas as pessoas, conhecidas há muito, há pouco, ou desconhecidas estavam sendo muito legais comigo. Me senti bem - eu não esperava por isso aquela noite.
Tinha um povo mais descolado. Um piá estrangeiro... E ele tava afim de uma guria linda. En effet très jolie! Ela era muito astuta. Não era retardada, muito menos vadiazinha. Tinha bom gosto, e sabia disfarçar as investidas dele muito bem. Todos quase sabiam fazê-lo. Até eu. Pensei em manter contato, mas ah! não ia adiantar. Ela tem namorado, os outros eram apenas conhecidos. E eu não era nada perto dela, eu acho.
Saí com os caras, eles pegaram o ônibus na outra direção. Acho que iam fumar maconha na casa de um deles. Fiquei no tubo esperando o meu ônibus. Demorou uma eternidade pra mim. Mas foi legal, era tarde, quase meia-noite, e eu ficava lá, sozinho, num dia morno, de vento frio, dentro do tubo com as luzes apagadas (ou estragadas mesmo), com meia-luz. Tinha uma puta que chegou depois. Fiquei lá, ouvindo meus 'indiezão' (como diz um amigo meu). Troquei, quis ouvir Pearl Jam. Bem melhor. E ficamos lá. Um bêbado, o cobrador sentado na escada, um espaço de três metros ou mais, a puta e eu, na sombra. O ônibus chegou, fui pra casa, entrei, comi, tomei banho e dormi.
Um fim de semana, fui num bar. Era pra escutar rock. O grande rock. Mas era um aniversário. Tava todo mundo agitado, meio louco. Todo mundo de todos os lugares foi pra lá naquela noite. Alguns jogos, umas putinhas fáceis. Peguei elas. Voltei a mim depois de um tempo. Todos voltaram. Fui pra casa, tomei um suco de laranja muito gostoso. Fim de semana legal. As coisas estavam estranhamente bem para a época da minha vida que já se estendia por mais de dois anos e meio. Bom isso. Ah, e foi uma vingança estar bem comigo mesmo. Uma vingança para com todos aqueles filhos da puta que duvidavam e me zoavam. E especialmente uma vingança para aquela lá do começo do ano.
Dias depois, não queria mais putinhas. Essas você encontra em qualquer lugar. São quase uma praga. Essas nem você, nem elas lembram dos nomes. Tava conversando com o pessoal na escada, tava todo mundo tranquilo e preocupado ao mesmo tempo. Mas era bom. Resolvi chamar uma guria legal pra tomar um café, mas acabamos indo tomar uma cerveja e comer. Falamos de muita coisa. Falar de muita coisa é quase meu dom divino - se deus existisse. Andamos até a pracinha, na frente do tubo nos despedimos. Ela agradeceu a companhia e me deu um abraço diferente, que devo dizer, foi um dos melhores em praticamente um ano. Fui pra casa.
Dias depois, na faculdade, fizemos as últimas provas, assistimos as últimas aulas e aquela merda toda acabou. Momentaneamente, na verdade.
Fui pra casa de um cara que se revelou grande amigo, Kotaka. O piá tem suas esquisitices, mas eu também tenho, mais até do que ele eu diria; e afinal, quem é que não é esquisito nessa cidade?! Enfim, ficamos comendo e bebendo bem, jogamos, relaxamos e ficamos conversando com os pais dele - povo legal -, depois conversamos sobre a vida, sobre o passado de uns anos atrás, conversamos sobre garotas, era inevitável falar de garotas, todo homem entende. Falamos de umas coisas sérias depois, mas sempre tinha umas piadinhas no meio, pra ficar mais descontraído. Foi ficando tarde, digo, para ficar na casa de alguém em dia de semana. Voltei pra casa a pé, escutando Eddie Vedder, vendo as casas bonitas daquela parte do bairro, vendo o colégio, lembrando do tempo do colégio. Lembrei daquela guria que eu gostava no colégio, é verdade. Pensei no que poderia ter sido se não. Passei na frente da casa da Gabi, guria legal também, aprendi a gostar ela com o tempo. Eu estava contemplativo, estava feliz. Andei pela Salgado Filho, como nos tempos de colégio, de feirinha, de hapkido. Ótima noite.
Mais alguns dias, já era férias. O tempo começou a esfriar de novo. Chegou a fazer 12ºC numa noite. Muito bom isso. Pude colocar aquele moletom que eu gosto por alguns dias. Meu cunhado, irmã e sobrinho foram pra Minas. Eu fiquei em casa com meus pais. Assisti alguns filmes, terminei de ler o livro sobre poesia medieval que não tive tempo de ler no fim do semestre. Mas o que mais marcou foi o livro que o Kotaka me emprestou; Na Natureza Selvagem. Que livro bom, que história (não estória) boa! Muito boa! Todo mundo tinha que ler esse livro. Fiquei escutando o CD do Eddie e lendo o livro alguns dias. Terminei mudado, tenho certeza.
Natal. Não tinha nada de especial pra comer. A casa está toda zuada por causa dos pedreiros malditos. Nada de presentes, só um chocolate. Me lembrou a páscoa. Chocolate gostoso. Frio e garoa no natal. Bem estranho, mas definitivamente agradável. Não teve nada, mas foi o melhor natal da minha vida. Eu estava tranquilo. A jovem idosa me disse que não fazia sentido desejar bom natal, não acreditando em deus. Talvez faça sentido. Mas ainda acho bom desejar bom natal, por costume, por educação, ou por algum motivo bobo - se você ler isso, desculpa, haha.
Mais dias de chuva e frio. Já me admirava como durava esse friozinho fora de época. Ano novo, ou melhor; último dia do ano. Toquei bateria um pouco. Back to the basics. Assisti um filme qualquer, ambientado numa floresta. Eu gosto de filmes ambientados em florestas. Só era estranho o fato desse filme ser britânico, parecia errado. Lá fora tinha um monte de babaca fazendo barulho, estourando fogos. Sempre me pergunto por que motivo eles não deixam para estourar tudo à meia-noite? Seria uma queima de fogos muito mais bonita e longa se fizessem isso; mas todo ano fazem a mesma idiotice... Não vi o último pôr-do-sol, nem queria ver, o filme era mais legal. A janela dos fundos estava aberta, e eu, ainda vendo o filme. Minha mãe me interrompeu pra uma oração de fim de ano. Eu aceitei.
No quarto dela, ela séria e esperançosa, meu pai com um ar de "só tô aqui porque é minha esposa" e eu em silêncio também. Ela fez a oração, parecia ter fé, não sei. Meu pai cruzava os braços e me olhava, olhava pra ela, mas não dava pra saber direito o que ele tava pensando. Ela com certeza queria que eu tivesse fé de novo. Respeitava isso, por isso fazia silêncio. Mas, as coisas que ela dizia na oração, eram risíveis para todo descrente. Segurei o riso, em respeito à fé alheia. O deus dela já foi meu deus anos atrás. Mesmo assim, quis muito rir. Só que isso seria muito filho da puta. Ela terminou. "Amém", disse ela, e nos olhou esperando que eu e meu pai também disséssemos, mas não falamos nada. Ela abraçou ele, e eu quase ri. Ela disse: "Pode rir." Eu ri. (João 11:35???) hahaha, acho que não naquele dia.
Voltei a ver o filme, quando de repente, fogos estouraram no meu telhado, eu corri e vi toda aquela fumaceira pela janela. Comecei a berrar xingamentos aos vizinhos que mantemos uma relação de ódio mutuo. Chovia, fui na rua, mas não tinha ninguém. Só uma velha, vizinha, que voltava de algum lugar com uma sacola. Nas casas da rua de cima, alguns carros e uma música cafona que tocava há quase 10 horas. Eu queria brigar. Mas não tinha ninguém. Voltei pra casa, tomei banho e comemos. Fogos e fogos, e 'feliz ano novo'. Meus pais foram dormir e eu assisti um episódio de uma série que passei a acompanhar antes de ir fazer o mesmo.
Bom Dezembro.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Nada
Saudade do tempo da escola. As coisas pareciam fáceis - sem desafios, o que tornava a vida monótona e tediosa é claro, mas atualmente é igualmente tediosa e com menos tempo de lazer -, eram fáceis, pelo menos pra mim:
Acordar, reclamar de acordar cedo e reclamar que a escola em que estudava 'era tosca', tomar café da manhã, ir pra escola, prestar atenção nas aulas que mais agradavam, dormir e conversar na maioria das outras aulas (exceto matemática, nunca podia), ir mal na educação física e ficar com vontade de ir bem, pois só assim se fazia amigos e as garotas gostariam de você. Depois ir pra casa, almoçar, ficar vendo TV, ou jogando alguma coisa qualquer no video game ou no computador. Sair para o cursinho de inglês e torcer para a aula passar rápido, torcer para pegar o ônibus rápido para não ter que fritar no sol ou ainda torcer para não ter sol (ok, isso vigora até hoje), torcer para ir bem na prova de matemática sempre aterrorizante. Ver uma garota bonita e conversar com ela, sem se importar o quão não apresentável estava, tentar ser amigo dela e também do garoto baixinho, que embora também fosse um desastre nos esportes, era reconhecido. Nem sempre conseguir. Voltar pra casa, jantar, ver mais TV, tomar banho e dormir. Que agradável, que cômodo.
O que considerava difícil e chato eram as coisas mais banais do mundo; como ir buscar o resultado de um exame médico. Ou ir com meus pais no médico, em alguma zona rica da cidade.
Me lembro de um desses dias de inverno curitibano, não os ensolarados de frio e geada, mas desses cinzentos, com vento frio e garoa ou chuva... Estava no carro numa avenida de um bairro meio chique, esperando meus pais voltarem de um desses médicos de clínicas igualmente chiques. Ligava o rádio na estação famosinha e começava a sentir algum desconforto, trocava para a estação de rock, ouvia Green Day, U2, Nirvana... Keane. Cansava, voltava para a estação famosinha, e escutava mais Keane - estava na moda. Músicas melancólicas, porém gostosas de se ouvir. Lembro que a chuva estava começando a cair, e as dondocas que passeavam com seus cachorros bonitos desapareceram rapidamente naquele fim de tarde, as garotas que passeavam por alí e que voltavam do colégio se protegiam como podiam da garoa que engrossava, o senhor aparentemente simpático, jogara seu jornal no lixo e apagara seu cachimbo e se abrigara próximo do médico onde estavam meus pais.
Acordar, reclamar de acordar cedo e reclamar que a escola em que estudava 'era tosca', tomar café da manhã, ir pra escola, prestar atenção nas aulas que mais agradavam, dormir e conversar na maioria das outras aulas (exceto matemática, nunca podia), ir mal na educação física e ficar com vontade de ir bem, pois só assim se fazia amigos e as garotas gostariam de você. Depois ir pra casa, almoçar, ficar vendo TV, ou jogando alguma coisa qualquer no video game ou no computador. Sair para o cursinho de inglês e torcer para a aula passar rápido, torcer para pegar o ônibus rápido para não ter que fritar no sol ou ainda torcer para não ter sol (ok, isso vigora até hoje), torcer para ir bem na prova de matemática sempre aterrorizante. Ver uma garota bonita e conversar com ela, sem se importar o quão não apresentável estava, tentar ser amigo dela e também do garoto baixinho, que embora também fosse um desastre nos esportes, era reconhecido. Nem sempre conseguir. Voltar pra casa, jantar, ver mais TV, tomar banho e dormir. Que agradável, que cômodo.
O que considerava difícil e chato eram as coisas mais banais do mundo; como ir buscar o resultado de um exame médico. Ou ir com meus pais no médico, em alguma zona rica da cidade.
Me lembro de um desses dias de inverno curitibano, não os ensolarados de frio e geada, mas desses cinzentos, com vento frio e garoa ou chuva... Estava no carro numa avenida de um bairro meio chique, esperando meus pais voltarem de um desses médicos de clínicas igualmente chiques. Ligava o rádio na estação famosinha e começava a sentir algum desconforto, trocava para a estação de rock, ouvia Green Day, U2, Nirvana... Keane. Cansava, voltava para a estação famosinha, e escutava mais Keane - estava na moda. Músicas melancólicas, porém gostosas de se ouvir. Lembro que a chuva estava começando a cair, e as dondocas que passeavam com seus cachorros bonitos desapareceram rapidamente naquele fim de tarde, as garotas que passeavam por alí e que voltavam do colégio se protegiam como podiam da garoa que engrossava, o senhor aparentemente simpático, jogara seu jornal no lixo e apagara seu cachimbo e se abrigara próximo do médico onde estavam meus pais.
Queria jogar video game, afinal, não tinha vida social. Mas depois de duas horas no banco de trás de um carro esperando, foi natural começar a pensar sobre essa escolha. Porque o video game e não o telefone para falar com alguém? Porque não outra coisa qualquer? Porque não querer entrar na internet para falar com alguém, mesmo que fosse sobre video game? Porque eu estava ali no carro e não em casa, ou na casa de alguém? Tantos garotos e garotas da minha idade iam na casa um do outro durante a semana... Eu não. Claro, eu não era como eles. Olhei para cima, na sacada de um prédio de 'alto padrão' estava uma menina, da minha idade na época, com uniforme do colégio. Falava ao telefone celular, desligou e guardou o celular no bolso do casaco, e se debruçou na mureta de sua sacada, ficou olhando para o horizonte, para o nada, para as pessoas lá embaixo. Não pude saber se ela aparentava feliz ou triste, irritada. Sua expressão facial era ambígua, mas tinha certeza que havia um tom de passividade em sua atitude. Nem isso eu tinha. Nem isso. Eu mal sabia quem era, não podia dizer nem que tipo de música me agradava mais. Talvez quisesse ser exatamente o que foi descrito acima: o garoto esportivo, legal, espontâneo, com "uma família perfeita" (obviamente isso não existe, mas no mundo ideal de nossas vontades sim), alguém com a mesmas opiniões da maioria, para que não houvessem conflitos. Quem sabe isso não tenha mudado tanto, mas só 'quem sabe'. Ninguém sabe. Queria a vida dos outros, sem ser os outros, mas sendo similar. Imaginava desde então a vida desses outros, desses melhores, desses que não era. Queria tudo e não queria nada, não podia querer nada - tal como hoje.
Acho que basta, linguagem simples, sono acumulado somado à vontade de escrever e indecisão sobre quase tudo que se tem em mente geralmente não produzem boas postagens, portanto, encurtemos esta.
Acho que basta, linguagem simples, sono acumulado somado à vontade de escrever e indecisão sobre quase tudo que se tem em mente geralmente não produzem boas postagens, portanto, encurtemos esta.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Botões do teclado
Pensando aqui "com meus botões" e agora cá com meu teclado cheguei à seguinte frase: O desespero cria as atitudes mais inusitadas, especialmente em momentos difíceis, não oportunos e indevidos.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Tragicomédia: Tristeza no dos outros é refresco.
Tragicomédia: Tristeza no dos outros é refresco.: "Não gosto da tristeza. Dizem que ela é mais bonita, mais artística. Eu gosto mesmo é de sentir."
Vale a pena ler! Encontrei a postagem nesse blog, muito bom.
Vale a pena ler! Encontrei a postagem nesse blog, muito bom.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Conto (de) Passageiro
O cenário: cair da noite, fria e chuvosa.
Saiu do café com um ar conformado, com ar monótono. Ao menos havia tomado um café previamente adocicado, e havia acrescentado duas colheres a mais de açúcar. As coisas doces o agradavam.
Andou em silêncio, ouvindo suas músicas e desviando das poças de água que cresciam nos desníveis tortuosos das calçadas a medida que a chuva aumentava. Parou. Pôs a mão no bolso e tirou suas moedas. Pagou a passagem de ônibus. Esperou. Continuou ouvindo suas músicas e esperou mais.
- Lá vem o ônibus.
Andou em silêncio, ouvindo suas músicas e desviando das poças de água que cresciam nos desníveis tortuosos das calçadas a medida que a chuva aumentava. Parou. Pôs a mão no bolso e tirou suas moedas. Pagou a passagem de ônibus. Esperou. Continuou ouvindo suas músicas e esperou mais.
- Lá vem o ônibus.
Como todos, se preparou para o embarque. Entre a pequena multidão que se espremia e se aglomerava próximo à porta, notou uma moça com cabelos brilhantes. Sentiu uma discreta vontade de poder ver seu rosto, mas ela estava de costas.
Entraram no ônibus.
Em meio à confusão de passageiros saindo, entrando, se sentando e se ajeitando, lá estava ela novamente, caminhando até o fundo do veículo. Sem notar, ele caminhou para o mesmo local; havia dois bancos vagos. De repente um rapaz o passou e se sentou onde pretendia se sentar. A moça se sentou logo atrás, precisamente no último banco bem ao centro. E ele, como não conseguira nenhum lugar, permaneceu em pé defronte à garota.
Pôde ver seu rosto. Era belo. Muito.
O ônibus inciava sua viagem.
Havia do lado dela um rapaz, mal encarado, um tanto estranho. Mas isso não era importante. Olhou para fora, e para as gotas que deslisavam pelas janelas. Porém, não pôde continuar a olhar para fora por muito tempo. Algo fazia com que voltasse sua atenção para a moça sentada logo a sua frente. Notara que ela não usava um calçado comum, era um calçado diferente, único. Notara sua blusa branca, e sua face; olhos esverdeados inebriantes, lápis de olho, nariz fino, lábios também finos coloridos com batom rosa avermelhado suave e brincos brancos pendurados delicadamente em cada orelha.
Tentou tratar de esquecer disso e voltou a olhar as gotas passeando pelas janelas, hora mais rápidas, hora mais lentas, de acordo com a aceleração do transporte. Tentativa vã. Olhou novamente para a moça. Ela adormecera. Bem, ao menos seus olhos estavam fechados e suas mãos pálidas repousavam uma sobre a outra. Tinha uma expressão em seu rosto; ele não foi capaz de distinguir se era cansaço, calma ou tristeza. Fixou o olhar e prestou atenção nela e se esqueceu dos outros passageiros por alguns instantes. Resolveu considerar que se tratava das três coisas juntas. Parecia um anjo. Era serena e doce. As coisas doces o agradavam. Desviou sua atenção de novo, mas desta vez para o chão. E assim permaneceu por alguns minutos.
"Como ela é bonita!" - pensava consigo. "Talvez vislumbrá-la apenas mais uma vez não seria má ideia, ela está dormindo tão calma..." - também pensara. Levantou a cabeça e ela o olhava diretamente. Sem querer se entreolharam, olhos nos olhos, por um segundo ou menos. Viraram suas faces para outro ponto qualquer simultaneamente, e ao mesmo tempo abaixaram suas cabeças. O ônibus finalmente chegou em sua primeira parada.
"Será que ela desce aqui? Muitos descem aqui.". Ela não desceu. Mas o susto e o incômodo o impeliram a se sentar, visto que muitos bancos ficaram vagos. Se sentou. Encostou a cabeça na janela embaçada e se meteu a pensar, a imaginar ações e falas com a bela desconhecida que sentava dois bancos atrás. Ações e falas diversas, e suas permutações em outras inúmeras ações e falas. Adormeceu.
"Cuidado com furtos no interior do veículo", era o que dizia a voz que o acordava. Ele se indagou se a garota ainda estava lá, mas havia gente demais para ver. Passou mais uma parada e um engarrafamento com esta questão em mente. Passado o engarrafamento, se aproximava seu destino. E o dela também. Ela passou por ele ao sair. Tentou tomar o mesmo caminho, mas o mesmo rapaz que o passara ao momento do embarque, o passou no momento do desembarque. Saíram. A garota havia se perdido.
Pegou se guarda-chuva embora não estivesse chovendo. Atravessou a rua, e viu a garota metros a frente. Pensou em oferecer seu guarda-chuva, uma vez que ela se encontrava sem. Ora, que ideia tola! Não estava chovendo. Oferecer o abrigo só o faria parecer um qualquer esquisito e oportunista - e talvez o fosse, no fundo o fosse, internamente, em seu âmago tinha isto como certeza. A garota colocou um capuz. Ambos ficaram presos no meio da avenida, entre os carros passando. Uma brecha. Atravessaram. Ele na beira da calçada, ela sob as marquises.
"Como ela é bonita!" - pensava consigo. "Talvez vislumbrá-la apenas mais uma vez não seria má ideia, ela está dormindo tão calma..." - também pensara. Levantou a cabeça e ela o olhava diretamente. Sem querer se entreolharam, olhos nos olhos, por um segundo ou menos. Viraram suas faces para outro ponto qualquer simultaneamente, e ao mesmo tempo abaixaram suas cabeças. O ônibus finalmente chegou em sua primeira parada.
"Será que ela desce aqui? Muitos descem aqui.". Ela não desceu. Mas o susto e o incômodo o impeliram a se sentar, visto que muitos bancos ficaram vagos. Se sentou. Encostou a cabeça na janela embaçada e se meteu a pensar, a imaginar ações e falas com a bela desconhecida que sentava dois bancos atrás. Ações e falas diversas, e suas permutações em outras inúmeras ações e falas. Adormeceu.
"Cuidado com furtos no interior do veículo", era o que dizia a voz que o acordava. Ele se indagou se a garota ainda estava lá, mas havia gente demais para ver. Passou mais uma parada e um engarrafamento com esta questão em mente. Passado o engarrafamento, se aproximava seu destino. E o dela também. Ela passou por ele ao sair. Tentou tomar o mesmo caminho, mas o mesmo rapaz que o passara ao momento do embarque, o passou no momento do desembarque. Saíram. A garota havia se perdido.
Pegou se guarda-chuva embora não estivesse chovendo. Atravessou a rua, e viu a garota metros a frente. Pensou em oferecer seu guarda-chuva, uma vez que ela se encontrava sem. Ora, que ideia tola! Não estava chovendo. Oferecer o abrigo só o faria parecer um qualquer esquisito e oportunista - e talvez o fosse, no fundo o fosse, internamente, em seu âmago tinha isto como certeza. A garota colocou um capuz. Ambos ficaram presos no meio da avenida, entre os carros passando. Uma brecha. Atravessaram. Ele na beira da calçada, ela sob as marquises.
Uma quadra depois e a chuva volta a cair. "Agora sim, vou diminuir o passo e oferecer meu guarda-chuva". Olhou para trás e ela não se encontrava mais lá. Típico. Uma pena. Uma amargura, falta de doçura. Não era bom, entretanto a lembrança era fresca e era doce. E as coisas doces o agradavam.
sábado, 20 de agosto de 2011
Gris Moyen
Acabei de ver um filme que trabalha bem a inteligência. Mas não a inteligência que - especialmente nós homens - estamos habituados. Não aquela inteligência, por definição racional, lógica. A inteligência a qual o filme nos remete é quase antagônica, ainda que complementar à já dita; é a inteligência emocional.
Talvez você que está a ler esteja se perguntando "Mas isso existe?". Indagação adequada visto que sempre nos dizem que razão e emoção são sempre contrárias uma à outra. Eu mesmo até pouco tempo acreditava nesse dualismo, nesse branco e preto, mas, como já disse, minha mente se diluiu em tons de cinza, e com ela minhas crenças também. Bom, respondendo a pergunta: sim, isso existe!
Muito bem, paremos com esses rodeios. O filme me pareceu tão bom, que não vi necessidade de alguém nem mesmo de entender racionalmente o filme. Simplesmente não precisa. Tudo o que deveria ser passado pelo filme, nos é transmitido através de referências emocionais, não lógicas. Inclusive, algum desavisado poderia assistir apenas alguns pedaços do filme, pois eles já se bastam por si. Enfim, o filme é bom.
Para quem se interessar de alguma forma, o nome do filme é "Ils se Marièrent et Eurent Beaucoup d'Enfants".
Talvez você que está a ler esteja se perguntando "Mas isso existe?". Indagação adequada visto que sempre nos dizem que razão e emoção são sempre contrárias uma à outra. Eu mesmo até pouco tempo acreditava nesse dualismo, nesse branco e preto, mas, como já disse, minha mente se diluiu em tons de cinza, e com ela minhas crenças também. Bom, respondendo a pergunta: sim, isso existe!
Muito bem, paremos com esses rodeios. O filme me pareceu tão bom, que não vi necessidade de alguém nem mesmo de entender racionalmente o filme. Simplesmente não precisa. Tudo o que deveria ser passado pelo filme, nos é transmitido através de referências emocionais, não lógicas. Inclusive, algum desavisado poderia assistir apenas alguns pedaços do filme, pois eles já se bastam por si. Enfim, o filme é bom.
Para quem se interessar de alguma forma, o nome do filme é "Ils se Marièrent et Eurent Beaucoup d'Enfants".
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Essay #1
[Nota: Nada melhor para publicar.]
What else could be done,
if they're all gone?
What else could be said,
when all you've got left is yourself awake in your bed?
All the memories,
I must burn,
'Cause if I don't, they would turn
all into huge tragedies.
When I write,
I pay attention to the dark ink.
I don't even blink;
Won't anything ever be just right?
Maybe, the problem is that I over-think.
I dreamed of us and of our trust,
But, unfortunately, we were crushed by our lust.
"Something borrowed, something blue"
is what they say; and now all I had to say, I just said everything to you.
What else could be done,
if they're all gone?
What else could be said,
when all you've got left is yourself awake in your bed?
All the memories,
I must burn,
'Cause if I don't, they would turn
all into huge tragedies.
When I write,
I pay attention to the dark ink.
I don't even blink;
Won't anything ever be just right?
Maybe, the problem is that I over-think.
I dreamed of us and of our trust,
But, unfortunately, we were crushed by our lust.
"Something borrowed, something blue"
is what they say; and now all I had to say, I just said everything to you.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Laicismo - Parte 1: Educação
Essa postagem será diferente das outras que costumo deixar aqui.
Apesar de ser agnóstico, procuro não enfatizar essa minha escolha aqui no Memórias Dissolvidas, assim como optei por não tocar em assuntos religiosos no blog, a não ser em eventuais postagens onde o fator religioso seja importante para a história, conto, poesia, prosa, etc.. Entretanto, após ler uma postagem recente no site Livres Pensadores, que convida quem tem blog(s) e/ou afins a postarem sobre este tema, o laicismo.
Bem, como já disse, hoje estou aqui para falar sobre algo realmente muito sério; a necessidade urgente de um Estado verdadeiramente laico, ao menos no Brasil que é o país onde nasci, e sempre morei, sendo assim meu único exemplo de Estado que conheço de verdade.
Segundo a Constituição Brasileira de 1988, especialmente de acordo com os Artigos 4º e 5º, todo brasileiro, todo estrangeiro com visto para morar no Brasil ou todo extrangeiro naturalizado brasileiro tem direito a liberdade de crença. Ainda segundo a Constituição vigente, no Artigo 5º, parágrafo II lê-se:
"II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude
de lei;"
Ora, sendo garantidas tanto a liberdade de crença (e portanto da falta de crença também) e a não obrigatoriedade de fazer algo salvo em virtude da lei que abrange a todos, chego à conclusão de que ninguém deve ser influenciado por nenhuma doutrina religiosa ao se tratar de assuntos públicos. Por esta razão, nas Leis de Diretrizes e Bases de 1996 lê-se em seu Artigo 33º:
"Art. 33º. O ensino religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários
normais das escolas públicas de ensino fundamental, sendo oferecido, sem ônus para os
cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus
responsáveis, em caráter:
I - confessional, de acordo com a opção religiosa do aluno ou do seu responsável,
ministrado por professores ou orientadores religiosos preparados e credenciados pelas
respectivas igrejas ou entidades religiosas; ou
II - interconfessional, resultante de acordo entre as diversas entidades religiosas, que se
responsabilizarão pela elaboração do respectivo programa."
Ok, esta é a teoria. Mas na prática sabemos que é bem diferente.
Eu, particularmente, tive a sorte (e privilégio) de, antes da faculdade, estudar em escolas e colégios privados. Foram quatro colégios; três de orientação católica e um de orientação adventista. Em todos dizia-se que as aulas de religião eram facultativas, mas na prá
tica não eram, pois todo o corpo docente das instituições forçava os alunos a participarem das aulas de religião - que na maioria das vezes se pareciam mais com aulas de conversão, doutrinamento forçado aos alunos, não importando a opinião do mesmo. No caso do colégio de orientação adventista, os alunos eram incllusive forçados a participarem de rituais religiosos (cultos) que ocorriam no colégio, o mesmo ocorreu em alguns períodos em uma escola católica onde também estudei. Tudo isso deixou claro que o ambiente não era laico, por mais que se propusesse. Quanto a isto, pouco podia fazer, afinal, por serem instituições privadas e não públicas, elas poderiam oferecer as aulas de religião como bem entendessem, e inclusive impor como matéria obrigatória a mesma. É claro, não poderiam obrigar uma conversão do aluno, pois isto é crime.
Também é salutar lembrar que todos os cômodos e até os corredores dos colégios tinham referências religiosas, o símbolo do adventismo do sétimo dia no colégio adventista, e cruzes e imagens de santos nos colégios católicos.
E quanto às escolas públicas? Bem, nestas encontra-se cruzes quase sempre, nas salas de aula ao menos. Isso passa um caráter de escola com ensino religioso confecional. Mas há um porém: só é confecional para católicos apostólicos romanos, e tentando extender ao máximo, para cristãos, ou ainda pessoas com mais de uma religião, caso haja alguma. Uma pessoa budista, ubandista, espírita, satanista, hinduísta, islâmica, judia, zoroastrista, xintoísta, confucionista, taoísta, entre outras várias religiões, não seria contemplado(a) com o mesmo benefício do caráter confecional, uma vez que não há um professor ou uma equipe confecional para isto. Na verdade, se cada escola tivesse uma equipe para cada fé de cada aluno ou ainda para cada fé de cada possível aluno, o corpo docente seria gigantesco tamanho é o número de fés diferentes que existem. É óbvio que as chances do aluno ser católico são grandes, pois o Brasil é o maior país católico do mundo. Entretanto, as políticas públicas e de educação não devem ser pautadas pela proporção de uma crença, uma vez que o Estado é oficialmente laico. Por isso, creio que a educação religiosa deva ser intercofessional. Porém, sem doutrinamento algum, visto que ninguém deve ser doutrinado em uma determinada religião ou filosofia caso não queira. Acredito ainda numa outra saída: o banimento do ensino de religião, ao menos nas escolas e colégios públicos; porém esta medida talvez não seria tão boa, pois empobreceria a cultura da população, no caso, dos alunos (digo isso tendo em vista que todas as religiões representam em sua totalidade um reflexo da cultura de um povo). De qualquer forma, no fim das contas, o importante é que as instituições públicas de ensino sejam laicas, tal como o Estado deve ser, caso contrário, podem haver consequências desagradáveis, ruins e até mesmo desastrosas em casos extremos.
Gostaria de deixar claro que não sou favorável ao fim das narrativas religiosas, de seus contos e da cultura que permeia cada religião existente. Talvez eu me incline sim para uma visão de que seria melhor um mundo sem religiões, mas definitivamente sem deixarmos de conhecer as religiões que existiram até hoje, pois seria uma perda irreparável para humanidade caso repentinamente perdessemos todo o enorme acervo histórico e cultural que as religiões nos proporcinaram com o passar dos milênios. Como o inglês Richard Dawkins diz, a mitologia das religiões são excelentes meios para a produção cultural ainda que esta não seja partidária da mitologia utilizada - como exemplo disso temos os infindáveis escritos da Era Moderna que mesmo sendo escritos normalmente por cristãos, se referem às mitologias greco-romanas da Antiguidade, em tom poético e belo. Enfim, essa postagem não é tampouco um atentado contra a liberdade religiosa e/ou de expressão.
Dito isso, como fim da primeira parte de Laicismo, deixo a proposta de três vídeos. Primeiramente parte de um discurso do presidente americano Barack Obama, que mesmo sendo americano, trata de assuntos que o Brasil partilha com os Estados Unidos, e com qualquer outro país laico no mundo. O segundo vídeo é a primeira de cinco partes do programa MTV Debate, com o tema 'Religião na Escola Pública?', exibido em Setembro de 2009. Por fim, o terceiro vídeo, é a parte inicial de um total de quatro partes do programa Trocando Idéias, da TV Justiça, exibido em Agosto de 2009 que teve como tema 'Ensino Religioso nas Escolas Públicas'.
Seguem os vídeos, na ordem:
1- Discurso de Obama:
http://www.youtube.com/watch?v=_IHQr4Cdx88
2- MTV Debate:
http://www.youtube.com/watch?v=vbL1uok56FM
3- Trocando Idéias:
http://www.youtube.com/watch?v=nOgAbriglGE&feature=related
Apesar de ser agnóstico, procuro não enfatizar essa minha escolha aqui no Memórias Dissolvidas, assim como optei por não tocar em assuntos religiosos no blog, a não ser em eventuais postagens onde o fator religioso seja importante para a história, conto, poesia, prosa, etc.. Entretanto, após ler uma postagem recente no site Livres Pensadores, que convida quem tem blog(s) e/ou afins a postarem sobre este tema, o laicismo.
Bem, como já disse, hoje estou aqui para falar sobre algo realmente muito sério; a necessidade urgente de um Estado verdadeiramente laico, ao menos no Brasil que é o país onde nasci, e sempre morei, sendo assim meu único exemplo de Estado que conheço de verdade.
Segundo a Constituição Brasileira de 1988, especialmente de acordo com os Artigos 4º e 5º, todo brasileiro, todo estrangeiro com visto para morar no Brasil ou todo extrangeiro naturalizado brasileiro tem direito a liberdade de crença. Ainda segundo a Constituição vigente, no Artigo 5º, parágrafo II lê-se:
"II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude
Ora, sendo garantidas tanto a liberdade de crença (e portanto da falta de crença também) e a não obrigatoriedade de fazer algo salvo em virtude da lei que abrange a todos, chego à conclusão de que ninguém deve ser influenciado por nenhuma doutrina religiosa ao se tratar de assuntos públicos. Por esta razão, nas Leis de Diretrizes e Bases de 1996 lê-se em seu Artigo 33º:
"Art. 33º. O ensino religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários
normais das escolas públicas de ensino fundamental, sendo oferecido, sem ônus para os
cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus
responsáveis, em caráter:
I - confessional, de acordo com a opção religiosa do aluno ou do seu responsável,
ministrado por professores ou orientadores religiosos preparados e credenciados pelas
respectivas igrejas ou entidades religiosas; ou
II - interconfessional, resultante de acordo entre as diversas entidades religiosas, que se
responsabilizarão pela elaboração do respectivo programa."
Ok, esta é a teoria. Mas na prática sabemos que é bem diferente.
Eu, particularmente, tive a sorte (e privilégio) de, antes da faculdade, estudar em escolas e colégios privados. Foram quatro colégios; três de orientação católica e um de orientação adventista. Em todos dizia-se que as aulas de religião eram facultativas, mas na prá
tica não eram, pois todo o corpo docente das instituições forçava os alunos a participarem das aulas de religião - que na maioria das vezes se pareciam mais com aulas de conversão, doutrinamento forçado aos alunos, não importando a opinião do mesmo. No caso do colégio de orientação adventista, os alunos eram incllusive forçados a participarem de rituais religiosos (cultos) que ocorriam no colégio, o mesmo ocorreu em alguns períodos em uma escola católica onde também estudei. Tudo isso deixou claro que o ambiente não era laico, por mais que se propusesse. Quanto a isto, pouco podia fazer, afinal, por serem instituições privadas e não públicas, elas poderiam oferecer as aulas de religião como bem entendessem, e inclusive impor como matéria obrigatória a mesma. É claro, não poderiam obrigar uma conversão do aluno, pois isto é crime.Também é salutar lembrar que todos os cômodos e até os corredores dos colégios tinham referências religiosas, o símbolo do adventismo do sétimo dia no colégio adventista, e cruzes e imagens de santos nos colégios católicos.
E quanto às escolas públicas? Bem, nestas encontra-se cruzes quase sempre, nas salas de aula ao menos. Isso passa um caráter de escola com ensino religioso confecional. Mas há um porém: só é confecional para católicos apostólicos romanos, e tentando extender ao máximo, para cristãos, ou ainda pessoas com mais de uma religião, caso haja alguma. Uma pessoa budista, ubandista, espírita, satanista, hinduísta, islâmica, judia, zoroastrista, xintoísta, confucionista, taoísta, entre outras várias religiões, não seria contemplado(a) com o mesmo benefício do caráter confecional, uma vez que não há um professor ou uma equipe confecional para isto. Na verdade, se cada escola tivesse uma equipe para cada fé de cada aluno ou ainda para cada fé de cada possível aluno, o corpo docente seria gigantesco tamanho é o número de fés diferentes que existem. É óbvio que as chances do aluno ser católico são grandes, pois o Brasil é o maior país católico do mundo. Entretanto, as políticas públicas e de educação não devem ser pautadas pela proporção de uma crença, uma vez que o Estado é oficialmente laico. Por isso, creio que a educação religiosa deva ser intercofessional. Porém, sem doutrinamento algum, visto que ninguém deve ser doutrinado em uma determinada religião ou filosofia caso não queira. Acredito ainda numa outra saída: o banimento do ensino de religião, ao menos nas escolas e colégios públicos; porém esta medida talvez não seria tão boa, pois empobreceria a cultura da população, no caso, dos alunos (digo isso tendo em vista que todas as religiões representam em sua totalidade um reflexo da cultura de um povo). De qualquer forma, no fim das contas, o importante é que as instituições públicas de ensino sejam laicas, tal como o Estado deve ser, caso contrário, podem haver consequências desagradáveis, ruins e até mesmo desastrosas em casos extremos.
Gostaria de deixar claro que não sou favorável ao fim das narrativas religiosas, de seus contos e da cultura que permeia cada religião existente. Talvez eu me incline sim para uma visão de que seria melhor um mundo sem religiões, mas definitivamente sem deixarmos de conhecer as religiões que existiram até hoje, pois seria uma perda irreparável para humanidade caso repentinamente perdessemos todo o enorme acervo histórico e cultural que as religiões nos proporcinaram com o passar dos milênios. Como o inglês Richard Dawkins diz, a mitologia das religiões são excelentes meios para a produção cultural ainda que esta não seja partidária da mitologia utilizada - como exemplo disso temos os infindáveis escritos da Era Moderna que mesmo sendo escritos normalmente por cristãos, se referem às mitologias greco-romanas da Antiguidade, em tom poético e belo. Enfim, essa postagem não é tampouco um atentado contra a liberdade religiosa e/ou de expressão.
Dito isso, como fim da primeira parte de Laicismo, deixo a proposta de três vídeos. Primeiramente parte de um discurso do presidente americano Barack Obama, que mesmo sendo americano, trata de assuntos que o Brasil partilha com os Estados Unidos, e com qualquer outro país laico no mundo. O segundo vídeo é a primeira de cinco partes do programa MTV Debate, com o tema 'Religião na Escola Pública?', exibido em Setembro de 2009. Por fim, o terceiro vídeo, é a parte inicial de um total de quatro partes do programa Trocando Idéias, da TV Justiça, exibido em Agosto de 2009 que teve como tema 'Ensino Religioso nas Escolas Públicas'.
Seguem os vídeos, na ordem:
1- Discurso de Obama:
http://www.youtube.com/watch?v=_IHQr4Cdx88
2- MTV Debate:
http://www.youtube.com/watch?v=vbL1uok56FM
3- Trocando Idéias:
http://www.youtube.com/watch?v=nOgAbriglGE&feature=related
domingo, 17 de julho de 2011
Tons de Cinza
Hoje. Agora.
Minha mente se dissolveu
Meu coração a obedeceu
E assim foi; em tons de cinza e em boa hora.
Minha mente se dissolveu
Meu coração a obedeceu
E assim foi; em tons de cinza e em boa hora.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Pasalix
Ansiedade,
me consome com velocidade,
deve ser coisa da idade,
da cidade.
Pasalix.
De forma nada bela,
acaba o fogo de uma vela.
Continuo pensando nela,
atravessando a passarela.
Pasalix.
Mais uma vez,
escassez!
Com tamanha nitidez
observei o fim da fluidez.
Pasalix.
O tempo passa,
e me amassa.
Arde a massa,
o pão assa.
Pasalix.
Estou cansado.
Me encontro curvado,
a quanto não fui abraçado,
abalado preso a meu pesar privado.
Pasalix.
Aparentemente, vida dissolvida em amônia;
Alguma guerra em uma ex-colônia.
Conflitos na Macedônia.
Ah! Insônia!
Bem... Pasalix.
me consome com velocidade,
deve ser coisa da idade,
da cidade.
Pasalix.
| ... |
acaba o fogo de uma vela.
Continuo pensando nela,
atravessando a passarela.
Pasalix.
Mais uma vez,
escassez!
Com tamanha nitidez
observei o fim da fluidez.
Pasalix.
O tempo passa,
e me amassa.
Arde a massa,
o pão assa.
Pasalix.
Estou cansado.
Me encontro curvado,
a quanto não fui abraçado,
abalado preso a meu pesar privado.
Pasalix.
Aparentemente, vida dissolvida em amônia;
Alguma guerra em uma ex-colônia.
Conflitos na Macedônia.
Ah! Insônia!
Bem... Pasalix.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
E no princípio havia o verbo, e o verbo era:
Não sei até que ponto isso é um sonho. Não sei quando vai terminar ou mesmo se vai. Sei que os caminhos parecem ter se fechado, um a um. Sei também que todas as cascas e fachadas estão rachando e logo estarão a cair.
Nota-se ainda que a cobrança, a andança e a insegurança são a constante. Em um instante se tornaram a vigência. Incessante. Agonizante... Disseram-me que eu passaria sim por provações no caminho do vale das sombras da morte, mas me omitiram que este vale se estende por todo o mundo. Não há clemência. Lugar imundo.

A vida parece um enxerto. Um enxerto que tem ganho ares de parasitismo. Pessimismo? Não duvido. Não sei se por ser um pesadelo ou por estar à beira do desfiladeiro não me deixo transpassar as lástimas, perdas, frustrações e os desejos. Aliás, falar o quê? Falar a quem?
Brigamos, cantamos, falamos, dançamos. Fazemos, escondemos, comemos, escrevemos. Caímos, nos ferimos, nos abrimos, nos partimos. Pomos então tudo a prova. Tudo acontece no agora. -Espere! Tudo acontecia! Já não há agora, não há hoje, quem dirá amanhã. Há apenas o ontem, os ontens. Ao passo que o frio do inverno, em suas geadas e ventos com aspecto glacial, enrijece cada folha nos campos e nas cidades, enrijece também nossas ações, descartando tudo o que existia de especial.
Passamos então a conjugar a vida assim:
Brigávamos, cantávamos, falávamos, dançávamos. Fazíamos, escondíamos, comíamos, escrevíamos... Caíamos, nos feríamos, nos abríamos, nos partíamos. - Hmm, algo não parece certo. O inverno não enrijeceu-nos de todo, um verbo ainda se mantém. Não devemos dizer "nos partíamos", e sim "nos partimos". Partir, ah sim! Este verbo ainda praticamos!
Bom, não devo mais me tardar muito. Chego ao ponto em que tento achar uma rima, qualquer que seja, Mas me deparo com o seguinte pensamento: Porque rimar? Porque desgastar-me visto que rimar é criar pares,trios; é criar relações? Não parece fazer sentido exercer algo desta natureza. Não num mundo destes. Não numa vida destas, onde não existem pares. Nesta vida, não existem rimas.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Não
Acha que vai 'ser alguém'? Acha que vai passar pelos obstáculos friamente e atingir o que quer? Pensa que estarão cá como quando você esteve lá? Acredita no bom porvir? Acredita no bom 'agora'? Te julgas capaz? Te julgas vivo? Supõe que seja normal, ou ainda que tudo seja legal?
....
Desculpe, creio que não. Não seremos ninguém. Não passaremos por nenhum obstáculo sem que antes ele nos esmague. Não haverá ninguém conosco. Não existem esperanças para o futuro. Tão pouco existe um presente agradável. Não és, não somos capazes. Estás morto, como eu e como eles. Não é normal, e se é, não deveria; nada é "legal".
Este lugar é frio, árido, estéril e solitário. O que exatamente você acha que está fazendo aqui?
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Nuvem
Não dormiu, ou, se dormiu, foi muito pouco e muito mal, disso o(a) leitor(a) pode ter certeza.
Se vestiu e saiu de casa. Ainda estava muito escuro, e, seja por sorte ou por azar, estava tão frio que o ar da respiração quando expelido se condensava muito mais que o de costume; o que talvez fosse um tanto agradável, pois combinava com a neblina que pairava sobre a cidade.
Entrou em uma padaria relativamente simples, ou melhor; verdadeiramente simples. Como muitas outras, tudo o que encontrou nesta foram pessoas doentes, entristecidas possivelmente mais que ele próprio, alguns maltrapilhos tentando fugir do frio, uns trabalhadores cansados e um bêbado procurando se curar da ressaca da última noitada. Pediu um pão e um café para a viagem; não poderia aguentar todo aquele falatório, uma vez que de queixas, bastavam as dele mesmo.
Foi até o banco público que mais lhe conveio. Comeu e bebeu. E, enquanto o fazia, notava a mediocridade dos homens e a ferocidade com que os afazeres do quotidiano abocanham a vida de todos nós (ou ao menos de quase todos nós).
Se vestiu e saiu de casa. Ainda estava muito escuro, e, seja por sorte ou por azar, estava tão frio que o ar da respiração quando expelido se condensava muito mais que o de costume; o que talvez fosse um tanto agradável, pois combinava com a neblina que pairava sobre a cidade.
Entrou em uma padaria relativamente simples, ou melhor; verdadeiramente simples. Como muitas outras, tudo o que encontrou nesta foram pessoas doentes, entristecidas possivelmente mais que ele próprio, alguns maltrapilhos tentando fugir do frio, uns trabalhadores cansados e um bêbado procurando se curar da ressaca da última noitada. Pediu um pão e um café para a viagem; não poderia aguentar todo aquele falatório, uma vez que de queixas, bastavam as dele mesmo.
Foi até o banco público que mais lhe conveio. Comeu e bebeu. E, enquanto o fazia, notava a mediocridade dos homens e a ferocidade com que os afazeres do quotidiano abocanham a vida de todos nós (ou ao menos de quase todos nós).
O dia começava a clarear quando terminou de comer. De qualquer modo, não havia muita luz; a névoa era muito espessa. Tanto que praticamente não era possível ver o topo dos prédios mais próximos e tão pouco dos distantes.
Caminhou até uma praça. No caminho topou com mais mendigos, putas, doentes e trabalhadores. Porém, desta vez viu ainda estudantes e repugnantes madames habitantes dos apartamentos e casas mais luxuosos da região a passear com seus caríssimos e pequenos cães de raça - provavelmente de alguns nomes alemães curiosos. Destas pessoas sentiu maior sentimento de repulsa do que das prostitutas imundas.
Caminhou até uma praça. No caminho topou com mais mendigos, putas, doentes e trabalhadores. Porém, desta vez viu ainda estudantes e repugnantes madames habitantes dos apartamentos e casas mais luxuosos da região a passear com seus caríssimos e pequenos cães de raça - provavelmente de alguns nomes alemães curiosos. Destas pessoas sentiu maior sentimento de repulsa do que das prostitutas imundas.
Ele se encontrava irritado e um tanto cabisbaixo, mas não poderia precisar o motivo de tais angústias caso lhe perguntassem - o que seria completamente improvável, já que ele cobrava de si mesmo ótima dissimulação dos sentimentos, visando aparentar estar bem, da mesma forma como você leitor(a), estou quase certo, faz constantemente. Entretanto o clima frio o agradava (ou aparentava apaziguá-lo pelo menos), assim como a paisagem tipicamente outonal; algumas poucas árvores mudando de cor em meio a pinheiros, araucárias e palmeiras. Estas árvores caducifólias... Com suas folhas apodrecendo no gramado, na calçada e nas ruas, quando não ainda presas à própria árvore.
O tráfego aumentara consideravelmente desde a hora em que saíra de casa (se é que podia chamar aquele lugar de casa).
A fumaça que saía de sua boca e turvava sua visão o distraia por alguns instantes. Era também esta sua única forma de tentar não pensar nos problemas que precisava resolver. Mas, ao passo que a fumaça se dissipava e desaparecia, seus problemas seus pensamentos desagradáveis surgiam. Provou-se assim, que sua distração era deveras ineficaz.
O tráfego aumentara consideravelmente desde a hora em que saíra de casa (se é que podia chamar aquele lugar de casa).
A fumaça que saía de sua boca e turvava sua visão o distraia por alguns instantes. Era também esta sua única forma de tentar não pensar nos problemas que precisava resolver. Mas, ao passo que a fumaça se dissipava e desaparecia, seus problemas seus pensamentos desagradáveis surgiam. Provou-se assim, que sua distração era deveras ineficaz.
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